Estilhaços nas janelas queimam no céu da minha boca

Estamos há tempos vivendo em um estado de tensão, com conflitos prestes a serem deflagrados e que a pandemia de Covid-19 só veio agravar. Essa sensação de pré-guerra é evidente no espetáculo Estilhaços na janela queimam no céu da minha boca, terceiro trabalho da Trilogia do Despejo, da Cia. A Digna, como direção de Eliana Monteiro.

A peça, itinerante, começa quando o espectador entra em um carro de aplicativo, que o busca em sua residência. A partir de então, simula-se ser o convidado do lançamento de um condomínio, mais um lançamento de luxo do mercado imobiliário numa cidade que ergue e destrói coisas belas, que funciona a partir da exclusão dos subalternos que entram nesses espaços pela porta de serviços.

Acontece que essa lógica do tudo que é sólido desmancha no ar não sobrevive quando os excluídos se unem e se organizam. Estilhaços mostra a fúria que está sendo acumulada quando os excluídos ameaçam quebrar as janelas, instalar o mal-estar e reivindicar o que lhes é de direito. Dentro e fora da festa, as bolhas que não se comunicam, mas estão prestes a serem furadas. A experiência itinerante traz a cidade para o corpo do espectador e o coloca em xeque: a precariedade do trabalho de motoristas de aplicativo e entregadores não pode mais ser ignorada, as lógicas de funcionamento do capitalismo tardia precisam ser revistas.

A dramaturgia, de Victor Nóvoa, foi feita em camadas, em diálogo colaborativo com esses trabalhadores. Em tempos de silenciamento, A Digna priorizou a escuta como modo de criação. Várias versões do texto foram construídas, uma delas publicada em livro, que difere da encenação em vários aspectos, funcionando como um complemento à experiência participativa que é traço de A Digna e dos trabalhos da diretora.

Ao final, voltamos para casa com os estilhaços ardendo em nossas bocas, incapazes de olhar de maneira sórdida os entregadores e motoristas que garantiram nossa quarentena dentro de casa. Há, em tudo isso, um resquício da ditadura (explicitado por Nóvoa) e um princípio de revolução. Afinal, a desobediência e a transgressão são formas de ir além da resistência, é o que nos ensinam as artes.