Feitiço da Soma

Desde seu primeiro trabalho, O Bebê de Tarlatana Rosa, a Rainha Kong tem despertado o interesse de segmentos da crítica e de pessoas interessadas na cena contemporânea. Formada por gente egressa da Unicamp, a coletiva (como elus se definem), é um grupo ousado, que traz frescor para o teatro e a performance. Em seu novo trabalho, o terceiro da companhia, apresentam um híbrido de teatro documentário, autoficção, performance e música.

Em Feitiço da Soma, peça escrita em formato de palestra-performance, o tema é o HIV/Aids. Não sob a forma lamurienta comum quando se fala disso. O temor não deixa de estar presente e, ao longo do espetáculo, é propositalmente intensificado em alguns momentos. Mas o Rainha Kong não cede a polarizações fáceis e mistura, paradoxalmente, vida e morte, liberdade e necropolítica, narrativas e seu contrário, o desejo e suas negações.

O tema é urgente. Para quem viu os dados da epidemia arrefecerem nos anos 2000 com os novos tratamentos e, no Brasil, uma exemplar política pública de tratamento e prevenção, causa espanto ver que a contaminação pelo HIV vem crescendo entre pessoas mais novas e – muito pior – saber que, apesar do tratamento antirretroviral ser garantido, 52 mil jovens soropositivos entre 15 e 24 anos evoluíram para a Aids entre 2011 e 2021, segundo dados do SUS.

Feitiço de Soma, porém, afasta-se de qualquer julgamento. Os corpos que portam o vírus, antes estigmatizados, são agora vistos como seres pulsantes, vivos, atraentes e desejantes. Mitos são desfeitos, entre eles a ideia de um “paciente zero”, um suposto comissário de bordo que teria trazido o vírus para o mundo ocidental, e a de que o tratamento não causa incômodo. Efeitos adversos dos medicamentos são apresentados por meio da leitura de bulas, projetadas em aparelhos de TV antigos.

A obra foi criada por Aleph Antialeph, que performa no palco com Nãovenhasemrosto. Os nomes são diferentes, como quase toda a ficha técnica da Rainha Kong. Mas como ser padrão hoje? Não dá, não é coerente com a fluidez contemporânea. Aos poucos, a palestra vai se desfazendo e as performers se transformam em magas, feiticeiras, agentes de um duplo que permeia o que pensamos ser a realidade. A cura não vem da eliminação do vírus, mas da descoberta dos mecanismos de dominação dos sujeitos pulsantes.

Tem um quê de anos 1980 em tudo isso, sem saudosismo, só a maquiagem carregada e a fumaça de gelo seco. Feitiço de Soma é a afirmação artaudiana de um corpo-sem-órgãos, que não se subjuga aos campos disciplinares da ciência e do biopoder. É um corpo insubmisso, que dança e festeja com a condução de Nata da Sociedade (o nome é esse mesmo) e música executada por Helena Menezes e Venus Garland. A direção é de Vitinho Rodrigues e Jaoa de Mello.

Enquanto você voava, eu criava raízes

Existem momentos no teatro que o tempo para, faz-se silêncio absoluto na plateia e o público parecer hipnotizado. É raro isso, mas quando acontece somos arremetidos a uma realidade outra, uma transcendência, um estado de epifania que prescinde de religião. É isso que tem sido as sessões de “Enquanto você voava, eu criava raízes”, novo espetáculo da Cia Dos à Deux, no Sesc Santo Amaro.

Indicado em várias categorias dos prêmios Shell (iluminação, cenário e figurino) e Cesgranrio (melhor espetáculo, direção, música, iluminação e cenário), o espetáculo uma dramaturgia de corpos, sem palavras, com imagens que remetem ao medo e sua superação. Estabelece uma primazia do imaginário, pois se há algo que pode nos salvar, não está na realidade. São quadros em movimento, em sofisticadas coreografias ampliadas por jogos de reflexos e estímulos sensoriais.

Os artistas André Curti e Artur Luanda Ribeiro, o Dos a Deux, trabalham juntos há 25 anos. Afirmam fazer um teatro gestual, mas o que fazem ainda não tem nome. Talvez nunca tenha, pois são trabalhos que fogem das categorizações possíveis de teatro, dança, pantomina ou performance. Juntos, fundam algo novo, para além das palavras e dos nomes. É expressão de uma nova epistemologia para as artes, para a experiência estética e para a fruição dos sentidos. São significantes que escapam de qualquer significação estática e deslizam incessantemente.

Em “Enquanto você voava, eu criava raízes”, seus corpos se fundem e se multiplicam, indo do Um ao infinito, como se manifestassem uma não-dualidade em que as categorias eu e outro deixassem de fazer sentido. É a contradição que nos move. Voar e criar raízes não se excluem, fazem parte de um mesmo movimento, indivisível e irredutível. As imagens parecem do mito da caverna ao osso lançado por Kubrick em sua odisseia no espaço, da natureza das raízes ao multiverso de Matrix, do suicídio a pulsões de vida.

O tempo é condensado, o espetáculo não chega a uma hora. Mas as imagens ecoam por dias e dias, como sementes plantadas próximas a raízes ou jogadas ao ar. Em comunhão, artistas e espectadores voam. E criam raízes.

Infância

Alguns espetáculos são como pequenas joias, encontradas em um mar de coisas banais. É esse o caso de Infância, transcrição cênica e musical do livro homônimo de Graciliano Ramos pelo grupo rodateatro. O projeto é de Ney Piacentini e Alexandre Rosa e já foi apresentado em várias cidades do país. Em São Paulo, esteve no Teatro Municipal e na Biblioteca Mário de Andrade e acaba de reestrear na SP Escola de Teatro.

Do livro de Graciliano Ramos, foram selecionados trechos referentes a sua alfabetização. É, de certo modo, estranho imaginar que um dos maiores escritor da literatura brasileira tenha demorado para aprender a ler e escrever. Desse relato, que permeia as páginas do livro, é transposto cenicamente com delicadeza. A atuação primorosa de Ney encontra na música de Alexandre seu melhor diapasão. Em dezembro de 2021, ainda sob os eflúvios da pandemia, os dois foram juntos para o sertão de Pernambuco e de Alagoas, conhecendo os espaços por onde o Graciliano menino passou.

Em cena, instrumentos musicais são evocados como se fossem as personagens do livro, com sonoridades raras como as de um fole indiano ou as de um violino infantil. No palco, objetos adquiridos ao longo da viagem mesclam-se com outros achados, como uma bricolagem cuidadosamente construída. Ao longo de aproximadamente uma hora, os elementos são apresentados, alimentando a imaginação do espectador com estímulos diversos, simultaneamente lúdicos e sérios, doces e cruéis, áridos e suaves.

Infância é uma fina artesania, um deleite dialeticamente sofisticado e simples, singelo e rico. Dois homens e um mundo, um sertão que também é nosso, uma dor que se transforou em algo mais nobre. Juntos, Alexandre e Ney conseguem suspender o tempo, refrear nossa desumanização continua e fornecer, de alguma forma, um sopro de vida.

A Herança – parte I

Em 1969, estreava na Broadway Os rapazes da banda, primeira peça de Mart Crowley, escrita a pedido de Vanessa Redgrave que viu nas histórias que esse jovem gay lhe contava algo além de conversa jogada fora. O texto de Crowley se passava em um apartamento de Nova York, no qual amigos gays se reuniam para um jantar e as mais diferentes questões do universo homoerótico emergiam.

Em larga medida, podemos pensar A Herança, escrita pelo também americano Matthew López, em cartaz no Teatro Vivo, como a transposição do legado de Crowley para o século XXI. A peça conta a história de Henry, interpretado por Reynaldo Gianecchini, um homossexual de meia idade e conservador, que se envolve com o jovem Eric, papel de Bruno Fagundes. Eric havia sido amigo do ex-companheiro de Henry, que em décadas anteriores abrigava em sua casa vítimas da epidemia de Aids, em uma época que o diagnóstico da doença era uma sentença de morte e nem se sonhava com PREPs ou PEPs.

Sucesso na Broadway desde sua estreia em 2019, A Herança ganhou quatro prêmios Tony. Em São Paulo, foram mais de três mil ingressos vendidos antes da estreia. Tamanho burburinho talvez tenha ofuscado os méritos da montagem, exagerando o foco nas celebridades em cena. Uma matéria no maior jornal do país dedicou três parágrafos à cor do cabelo de Gianecchini. Por outro lado, um patrulhamento gay mais feroz tem chamado o espetáculo de “padrãozinho”, burguês, elitizado.

Nada disso, porém, ofusca o brilhantismo de A Herança. A direção, de Zé Henrique de Paula, evidencia uma abordagem poética e cirúrgica de questões que ronda o universo gay. Em uma perspectiva temporal, estão presentes as diferenças históricas entre a geração. Se nos anos 1990 a discussão principal era a epidemia de Aids, hoje é o casamento igualitário, a adoção e os afetos em tempos de aplicativos. Entre os mais velhos e os mais jovens, a solidão e o medo são os mesmos, só mudam de forma.

Há momentos líricos, que comovem e mobilizam afetos, ao mesmo tempo que as contradições e o contraste com a realidade circundante o transformam, também, em documento. Sem querer ser um libelo político, A Herança defende direitos e cidadania, mostra como o conservadorismo também se faz presente entre homossexuais. Herdeira do realismo estadunidense, tem pitadas do universo fantástico. Esteticamente, o kitsch minimalista dos gays dos anos 1990 é substituído por cenários e figurinos limpos, como a revelar as personagens de forma crua e honesta.

Há que se destacar, também, as atuações de Rafael Primot e Marco Antônio Pâmio. Rafael, que literalmente quebrou o pé na estreia, criou uma interpretação nuançada, manifestando as contradições das novas epistemologias de sexo e afeto. E Pâmio é responsável por um dos momentos mais fortes e lindos de A Herança, em um extenso monólogo no final de primeira parte. Dia 24 de março, estreia a continuação, com uma aguardada participação de Miriam Mehler. Tudo em A Herança é bem-feito e isso incomoda. Impossível, mesmo, é ficar indiferente.

F.E.T.O. – Estudos de Doroteia Nua Descendo a Escada

No conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges, há um ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo, inusitadamente localizado na narrativa no porão de uma grande casa em Buenos Aires que está para ser demolida. Algo assim passou a existir no Sesc Consolação, no histórico Teatro Anchieta, com a estreia de F.E.T.O. – Estudos de Doroteia Nua Descendo a Escada, novo trabalho de Gerald Thomas.

Assim como o protagonista de Borges, o espectador é sugado por um buraco negro de imagens, sons e temporalidades diversas. Ao menos três tempos históricos coexistem nos cem minutos do espetáculo: a efervescente cena cultural do início do século XX, quando Duchamp quebrava os cânones do fazer artístico, realizando o que os impressionistas não tiveram coragem fazer; o cenário bélico e desesperançado do pós-guerra em meados do século passado, período em que Nelson Rodrigues escreveu Dorotéia e que Samuel Beckett produziu suas obras mais icônicas; e o mundo pós-pandêmico que estamos compulsoriamente imersos.

Em F.E.T.O., além do quadro Nu descendo a escada no nome, Duchamp está presente com uma reprodução ampliada de Roda de bicicleta e alusões a O grande vidro, sua última pintura. O universo de sentidos deslizantes do dadaísmo combina-se com uma paisagem onírica, acentuada pela dança aérea de Lisa Giobbi. Bonecos com a forma de um feto saído do quadro No tempo e na terra I, de Iberê Camargo, fazem parte dos objetos de cena. Em conjunto, essas obras revelam a frustração de uma promessa de modernidade não cumprida, alusão à atual onda conservadora, a um Brasil que não deu certo ou ao retrocesso das leis sobre o aborto nos Estados Unidos.

Assim como Doroteia que busca um moralismo tosco como forma de expiação de sua vida mundana, todos nós estamos imersos em um tempo de obscurantismos apaixonados, em que se aplaudem torturadores, genocidas e milicianos e uma arma vira objeto de culto na Marcha para Jesus. Ao descer a escada, o nu cai num vazio, num nada. As contradições, porém, aparecem sub-reptícias, como o desejo que se manifesta pelas brechas do inconsciente. O figurino assinado por João Pimenta, ao contrário da proposta original de Nelson Rodrigues de vestes que enfiam as personagens, traz formas voluptuosas, sensuais, ainda que feitas de tecidos pretos e encobrindo os corpos.

A temporada de F.E.T.O. será pouca, somente quatro semanas. Merece ser vista e revista, como uma experiência rara. É ar fresco para espanar a poeira das janelas fechadas pela pandemia. É biscoito fino para as massas e para todos nós.

Chega de saudade!

Nos cem anos da Semana de 22, muito se tem falado sobre as marcas deixadas pela cultura dominante na arte brasileira, em especial a contradição entre submeter-se a padrões estrangeiros e buscar uma expressão brasileira autóctone. A tensão entre o erudito e o popular emerge no bojo desses debates e as conclusões são difíceis de serem obtidas. 

Chega de Saudade, da Aquela Cia (com direção de Marco André Nunes e texto de Pedro Kosovski) coloca em cena essas questões de maneira irreverente, abrindo o debate para novos temas e novas abordagens. No palco, corpos negros assumem papéis dos nomes conhecidos da Bossa Nova. Nara Leão ser interpretada por Blackyva muda muita coisa. 

A simples presença de artistas negros já subverte as abordagens corriqueiras sobre esse estilo e movimento musical. Nas histórias da Bossa Nova, Alaíde Costa e Johnny Alf são apresentados marginalmente – e o fato de serem negros em um grupo de brancos, classe média da Zona Sul carioca, explica esse apagamento. 

Ainda que fale de música, Chega de Saudade não é um musical. Há muita música no espetáculo, mas a abordagem aproxima-se mais das investigações anteriores da Aquela Cia, como Caranguejo Overdrive e Guanabara Canibal, que partem dos fatos para fazer uma espécie de auditoria de nossa história. É daqueles espetáculos que mudam nossas certezas, chacoalhando com humor nossas mais arraigadas convicções.

7Pisos

Não somos todos iguais. Nas lógicas da dominação, nossos corpos valem mais ou valem menos de acordo com critérios alheios à nossa vontade. A peça 7PISOS, do grupo Folias, revela mecanismos que conduzem o paciente Giuseppe Corte, escritor com sintomas leves de uma doença não identificada, a um quadro cada vez pior. Não se trata do agravamento de uma enfermidade, mas sim da submissão de um corpo tornado abjeto pelo discurso médico à ordem dominante. Um homem negro, artista, inteligente converte-se ao longo da apresentação em um monstro moribundo e aparvalhado. 

A dramaturgia, de Paloma Franca Amorim, teve como ponto de partida em um conto de Dino Buzatti, escritor e dramaturgo italiano que em várias obras trata de processos de alienação e alheamento dos sujeitos de maneira involuntária, revelando como somos cruelmente atravessados por sistemas e estruturas que querem pacificar os corpos como exercício de poder. Em 7PISOS, um hospital emprega um método particular de tratamento, dividindo os andares de acordo com a suposta gravidade dos enfermos. 

Logo de entrada, atores vestidos de médico destacam-se em um cenário com poucos elementos. As roupas brancas se impõem como produtoras de uma verdade fajuta, contrastando com o corpo negro que sintetiza vários outros. Não por acaso, mesclam-se em Giuseppe tantos outros negros e negras, de Amarildo a Marielle Franco. Gradualmente, o público acompanha a descida ao inferno de Giuseppe. O dispositivo já bastante empregado pelo Folias de abrir a porta do teatro para a rua indica, em 7PISOS, o pertencimento de artistas ao mundo dos boêmios e dos excluídos, dos que não se encaixam nas estruturas de dominação. 

É um espetáculo incômodo, pois revela que nossos limites e impotências diante dos mecanismos de exclusão e da taxonomia dos corpos. Mas é uma abordagem necessária nesses tempos de neonazismos e ascensão da direita tresloucada, pois só haverá algum abalo nas estruturas se a loucura de Giuseppe e de todos os artistas persistirem em se revelar.

Alaska

Um inventivo cenário abriga um homem cuja solidão e isolamento é interrompido com a chegada de uma mulher vestida de noiva e sapatos de cetim, em estado de hipotermia. Delirante, ela adentra o espaço cênico espalhando bolinhas de isopor que remetem à neve. Há desespero em seus olhos, seus cabelos estão desgrenhados e não conseguimos encontrar coerência no que ela diz. 

Alaska, escrita pela dramaturga estadunidense Cindy Lou Johnson, é um drama contemporâneo, cheio de vazios a serem preenchidos pelo espectador, o que torna o espetáculo fascinante em diferentes níveis. São duas pessoas isoladas pela neve, em ambas paira algo de trágico, como se o mundo apresentasse obstáculos intransponíveis. 

Eles tentam se entender, mas como confiar em qualquer pessoa enquanto tudo se desmorona? É ainda possível acreditar em alguém? Nossas decisões não seguem uma lógica certa e todos podemos agir de forma imprevisível. Seria possível algum laço com qualquer pessoa que, aparentemente do nada, decide partir? Alaska abala nossas certezas e nos remete à solidão intrínseca à existência. 

Chama atenção o uso criativo da contrarregragem, que em alguns momentos torna-se coadjuvante. No porão onde é encenada, Alaska encontrou o espaço adequado para potencializar o texto e a atuação vigorosa de Rodrigo Pandolfo, que assina a direção, e Louise D’Tuane, idealizadora do projeto. Incompreensível, porém, essa nova política do Centro Cultural São Paulo de oferecer temporadas absurdamente curtas para espetáculos tão elaborados como esse.

Estilhaços nas janelas queimam no céu da minha boca

Estamos há tempos vivendo em um estado de tensão, com conflitos prestes a serem deflagrados e que a pandemia de Covid-19 só veio agravar. Essa sensação de pré-guerra é evidente no espetáculo Estilhaços na janela queimam no céu da minha boca, terceiro trabalho da Trilogia do Despejo, da Cia. A Digna, como direção de Eliana Monteiro.

A peça, itinerante, começa quando o espectador entra em um carro de aplicativo, que o busca em sua residência. A partir de então, simula-se ser o convidado do lançamento de um condomínio, mais um lançamento de luxo do mercado imobiliário numa cidade que ergue e destrói coisas belas, que funciona a partir da exclusão dos subalternos que entram nesses espaços pela porta de serviços.

Acontece que essa lógica do tudo que é sólido desmancha no ar não sobrevive quando os excluídos se unem e se organizam. Estilhaços mostra a fúria que está sendo acumulada quando os excluídos ameaçam quebrar as janelas, instalar o mal-estar e reivindicar o que lhes é de direito. Dentro e fora da festa, as bolhas que não se comunicam, mas estão prestes a serem furadas. A experiência itinerante traz a cidade para o corpo do espectador e o coloca em xeque: a precariedade do trabalho de motoristas de aplicativo e entregadores não pode mais ser ignorada, as lógicas de funcionamento do capitalismo tardia precisam ser revistas.

A dramaturgia, de Victor Nóvoa, foi feita em camadas, em diálogo colaborativo com esses trabalhadores. Em tempos de silenciamento, A Digna priorizou a escuta como modo de criação. Várias versões do texto foram construídas, uma delas publicada em livro, que difere da encenação em vários aspectos, funcionando como um complemento à experiência participativa que é traço de A Digna e dos trabalhos da diretora.

Ao final, voltamos para casa com os estilhaços ardendo em nossas bocas, incapazes de olhar de maneira sórdida os entregadores e motoristas que garantiram nossa quarentena dentro de casa. Há, em tudo isso, um resquício da ditadura (explicitado por Nóvoa) e um princípio de revolução. Afinal, a desobediência e a transgressão são formas de ir além da resistência, é o que nos ensinam as artes.