Chega de saudade!

Nos cem anos da Semana de 22, muito se tem falado sobre as marcas deixadas pela cultura dominante na arte brasileira, em especial a contradição entre submeter-se a padrões estrangeiros e buscar uma expressão brasileira autóctone. A tensão entre o erudito e o popular emerge no bojo desses debates e as conclusões são difíceis de serem obtidas. 

Chega de Saudade, da Aquela Cia (com direção de Marco André Nunes e texto de Pedro Kosovski) coloca em cena essas questões de maneira irreverente, abrindo o debate para novos temas e novas abordagens. No palco, corpos negros assumem papéis dos nomes conhecidos da Bossa Nova. Nara Leão ser interpretada por Blackyva muda muita coisa. 

A simples presença de artistas negros já subverte as abordagens corriqueiras sobre esse estilo e movimento musical. Nas histórias da Bossa Nova, Alaíde Costa e Johnny Alf são apresentados marginalmente – e o fato de serem negros em um grupo de brancos, classe média da Zona Sul carioca, explica esse apagamento. 

Ainda que fale de música, Chega de Saudade não é um musical. Há muita música no espetáculo, mas a abordagem aproxima-se mais das investigações anteriores da Aquela Cia, como Caranguejo Overdrive e Guanabara Canibal, que partem dos fatos para fazer uma espécie de auditoria de nossa história. É daqueles espetáculos que mudam nossas certezas, chacoalhando com humor nossas mais arraigadas convicções.

7Pisos

Não somos todos iguais. Nas lógicas da dominação, nossos corpos valem mais ou valem menos de acordo com critérios alheios à nossa vontade. A peça 7PISOS, do grupo Folias, revela mecanismos que conduzem o paciente Giuseppe Corte, escritor com sintomas leves de uma doença não identificada, a um quadro cada vez pior. Não se trata do agravamento de uma enfermidade, mas sim da submissão de um corpo tornado abjeto pelo discurso médico à ordem dominante. Um homem negro, artista, inteligente converte-se ao longo da apresentação em um monstro moribundo e aparvalhado. 

A dramaturgia, de Paloma Franca Amorim, teve como ponto de partida em um conto de Dino Buzatti, escritor e dramaturgo italiano que em várias obras trata de processos de alienação e alheamento dos sujeitos de maneira involuntária, revelando como somos cruelmente atravessados por sistemas e estruturas que querem pacificar os corpos como exercício de poder. Em 7PISOS, um hospital emprega um método particular de tratamento, dividindo os andares de acordo com a suposta gravidade dos enfermos. 

Logo de entrada, atores vestidos de médico destacam-se em um cenário com poucos elementos. As roupas brancas se impõem como produtoras de uma verdade fajuta, contrastando com o corpo negro que sintetiza vários outros. Não por acaso, mesclam-se em Giuseppe tantos outros negros e negras, de Amarildo a Marielle Franco. Gradualmente, o público acompanha a descida ao inferno de Giuseppe. O dispositivo já bastante empregado pelo Folias de abrir a porta do teatro para a rua indica, em 7PISOS, o pertencimento de artistas ao mundo dos boêmios e dos excluídos, dos que não se encaixam nas estruturas de dominação. 

É um espetáculo incômodo, pois revela que nossos limites e impotências diante dos mecanismos de exclusão e da taxonomia dos corpos. Mas é uma abordagem necessária nesses tempos de neonazismos e ascensão da direita tresloucada, pois só haverá algum abalo nas estruturas se a loucura de Giuseppe e de todos os artistas persistirem em se revelar.

Alaska

Um inventivo cenário abriga um homem cuja solidão e isolamento é interrompido com a chegada de uma mulher vestida de noiva e sapatos de cetim, em estado de hipotermia. Delirante, ela adentra o espaço cênico espalhando bolinhas de isopor que remetem à neve. Há desespero em seus olhos, seus cabelos estão desgrenhados e não conseguimos encontrar coerência no que ela diz. 

Alaska, escrita pela dramaturga estadunidense Cindy Lou Johnson, é um drama contemporâneo, cheio de vazios a serem preenchidos pelo espectador, o que torna o espetáculo fascinante em diferentes níveis. São duas pessoas isoladas pela neve, em ambas paira algo de trágico, como se o mundo apresentasse obstáculos intransponíveis. 

Eles tentam se entender, mas como confiar em qualquer pessoa enquanto tudo se desmorona? É ainda possível acreditar em alguém? Nossas decisões não seguem uma lógica certa e todos podemos agir de forma imprevisível. Seria possível algum laço com qualquer pessoa que, aparentemente do nada, decide partir? Alaska abala nossas certezas e nos remete à solidão intrínseca à existência. 

Chama atenção o uso criativo da contrarregragem, que em alguns momentos torna-se coadjuvante. No porão onde é encenada, Alaska encontrou o espaço adequado para potencializar o texto e a atuação vigorosa de Rodrigo Pandolfo, que assina a direção, e Louise D’Tuane, idealizadora do projeto. Incompreensível, porém, essa nova política do Centro Cultural São Paulo de oferecer temporadas absurdamente curtas para espetáculos tão elaborados como esse.

Estilhaços nas janelas queimam no céu da minha boca

Estamos há tempos vivendo em um estado de tensão, com conflitos prestes a serem deflagrados e que a pandemia de Covid-19 só veio agravar. Essa sensação de pré-guerra é evidente no espetáculo Estilhaços na janela queimam no céu da minha boca, terceiro trabalho da Trilogia do Despejo, da Cia. A Digna, como direção de Eliana Monteiro.

A peça, itinerante, começa quando o espectador entra em um carro de aplicativo, que o busca em sua residência. A partir de então, simula-se ser o convidado do lançamento de um condomínio, mais um lançamento de luxo do mercado imobiliário numa cidade que ergue e destrói coisas belas, que funciona a partir da exclusão dos subalternos que entram nesses espaços pela porta de serviços.

Acontece que essa lógica do tudo que é sólido desmancha no ar não sobrevive quando os excluídos se unem e se organizam. Estilhaços mostra a fúria que está sendo acumulada quando os excluídos ameaçam quebrar as janelas, instalar o mal-estar e reivindicar o que lhes é de direito. Dentro e fora da festa, as bolhas que não se comunicam, mas estão prestes a serem furadas. A experiência itinerante traz a cidade para o corpo do espectador e o coloca em xeque: a precariedade do trabalho de motoristas de aplicativo e entregadores não pode mais ser ignorada, as lógicas de funcionamento do capitalismo tardia precisam ser revistas.

A dramaturgia, de Victor Nóvoa, foi feita em camadas, em diálogo colaborativo com esses trabalhadores. Em tempos de silenciamento, A Digna priorizou a escuta como modo de criação. Várias versões do texto foram construídas, uma delas publicada em livro, que difere da encenação em vários aspectos, funcionando como um complemento à experiência participativa que é traço de A Digna e dos trabalhos da diretora.

Ao final, voltamos para casa com os estilhaços ardendo em nossas bocas, incapazes de olhar de maneira sórdida os entregadores e motoristas que garantiram nossa quarentena dentro de casa. Há, em tudo isso, um resquício da ditadura (explicitado por Nóvoa) e um princípio de revolução. Afinal, a desobediência e a transgressão são formas de ir além da resistência, é o que nos ensinam as artes.