Ferdinando Martins é professor doutor na ECA-USP, onde coordena o Centro de Documentação Teatral. Jurado do Prêmio Shell de Teatro e da APCA. Realiza pesquisas sobre teatro, performance e produção cultural nas Américas e no Oriente Médio.

Feitiço da Soma

Desde seu primeiro trabalho, O Bebê de Tarlatana Rosa, a Rainha Kong tem despertado o interesse de segmentos da crítica e de pessoas interessadas na cena contemporânea. Formada por gente egressa da Unicamp, a coletiva (como elus se definem), é um grupo ousado, que traz frescor para o teatro e a performance. Em seu novo trabalho, o terceiro da companhia, apresentam um híbrido de teatro documentário, autoficção, performance e música.

Em Feitiço da Soma, peça escrita em formato de palestra-performance, o tema é o HIV/Aids. Não sob a forma lamurienta comum quando se fala disso. O temor não deixa de estar presente e, ao longo do espetáculo, é propositalmente intensificado em alguns momentos. Mas o Rainha Kong não cede a polarizações fáceis e mistura, paradoxalmente, vida e morte, liberdade e necropolítica, narrativas e seu contrário, o desejo e suas negações.

O tema é urgente. Para quem viu os dados da epidemia arrefecerem nos anos 2000 com os novos tratamentos e, no Brasil, uma exemplar política pública de tratamento e prevenção, causa espanto ver que a contaminação pelo HIV vem crescendo entre pessoas mais novas e – muito pior – saber que, apesar do tratamento antirretroviral ser garantido, 52 mil jovens soropositivos entre 15 e 24 anos evoluíram para a Aids entre 2011 e 2021, segundo dados do SUS.

Feitiço de Soma, porém, afasta-se de qualquer julgamento. Os corpos que portam o vírus, antes estigmatizados, são agora vistos como seres pulsantes, vivos, atraentes e desejantes. Mitos são desfeitos, entre eles a ideia de um “paciente zero”, um suposto comissário de bordo que teria trazido o vírus para o mundo ocidental, e a de que o tratamento não causa incômodo. Efeitos adversos dos medicamentos são apresentados por meio da leitura de bulas, projetadas em aparelhos de TV antigos.

A obra foi criada por Aleph Antialeph, que performa no palco com Nãovenhasemrosto. Os nomes são diferentes, como quase toda a ficha técnica da Rainha Kong. Mas como ser padrão hoje? Não dá, não é coerente com a fluidez contemporânea. Aos poucos, a palestra vai se desfazendo e as performers se transformam em magas, feiticeiras, agentes de um duplo que permeia o que pensamos ser a realidade. A cura não vem da eliminação do vírus, mas da descoberta dos mecanismos de dominação dos sujeitos pulsantes.

Tem um quê de anos 1980 em tudo isso, sem saudosismo, só a maquiagem carregada e a fumaça de gelo seco. Feitiço de Soma é a afirmação artaudiana de um corpo-sem-órgãos, que não se subjuga aos campos disciplinares da ciência e do biopoder. É um corpo insubmisso, que dança e festeja com a condução de Nata da Sociedade (o nome é esse mesmo) e música executada por Helena Menezes e Venus Garland. A direção é de Vitinho Rodrigues e Jaoa de Mello.