Ferdinando Martins é professor doutor na ECA-USP, onde coordena o Centro de Documentação Teatral. Jurado do Prêmio Shell de Teatro e da APCA. Realiza pesquisas sobre teatro, performance e produção cultural nas Américas e no Oriente Médio.

Infância

Alguns espetáculos são como pequenas joias, encontradas em um mar de coisas banais. É esse o caso de Infância, transcrição cênica e musical do livro homônimo de Graciliano Ramos pelo grupo rodateatro. O projeto é de Ney Piacentini e Alexandre Rosa e já foi apresentado em várias cidades do país. Em São Paulo, esteve no Teatro Municipal e na Biblioteca Mário de Andrade e acaba de reestrear na SP Escola de Teatro.

Do livro de Graciliano Ramos, foram selecionados trechos referentes a sua alfabetização. É, de certo modo, estranho imaginar que um dos maiores escritor da literatura brasileira tenha demorado para aprender a ler e escrever. Desse relato, que permeia as páginas do livro, é transposto cenicamente com delicadeza. A atuação primorosa de Ney encontra na música de Alexandre seu melhor diapasão. Em dezembro de 2021, ainda sob os eflúvios da pandemia, os dois foram juntos para o sertão de Pernambuco e de Alagoas, conhecendo os espaços por onde o Graciliano menino passou.

Em cena, instrumentos musicais são evocados como se fossem as personagens do livro, com sonoridades raras como as de um fole indiano ou as de um violino infantil. No palco, objetos adquiridos ao longo da viagem mesclam-se com outros achados, como uma bricolagem cuidadosamente construída. Ao longo de aproximadamente uma hora, os elementos são apresentados, alimentando a imaginação do espectador com estímulos diversos, simultaneamente lúdicos e sérios, doces e cruéis, áridos e suaves.

Infância é uma fina artesania, um deleite dialeticamente sofisticado e simples, singelo e rico. Dois homens e um mundo, um sertão que também é nosso, uma dor que se transforou em algo mais nobre. Juntos, Alexandre e Ney conseguem suspender o tempo, refrear nossa desumanização continua e fornecer, de alguma forma, um sopro de vida.