Mônica Rodrigues da Costa é jornalista especializada em infância, poeta e professora, autora na antologia O livro dos medos (Companhia das Letrinhas) e coautora da página Zoemas no Facebook. Integra o coletivo Colo de Jornalismo Infantojuvenil. Foi crítica de teatro para crianças na Folha de S.Paulo de 1995 a 2020 e é jurada da APCA. Colabora com o site Panis & Circus.

João Bobo

A Cia. Paideia de Teatro faz 25 anos e oferece de presente à capital paulista mais uma temporada do divertido espetáculo João Bobo, em cartaz até 03/12 na sede do grupo, em Santo Amaro. O personagem que dá título ao espetáculo vem de lendas europeias — uma de suas versões foi recolhida pelos irmãos Grimm. No Brasil a fábula com o garoto faz parte da tradição folclórica. 

As fábulas, histórias ou causos que nascem da sabedoria popular, têm o mérito de observar os ambientes e as características humanas e personificá-las nos mais diferentes bichos. Assim, as rãs que pediam a Deus um rei moravam num charco em conto de La Fontaine porque, na realidade, ali é o hábitat onde vivem os anfíbios. 

No conto popular “João Bobo” ocorre algo parecido. A ave chamada “joão-bobo” no Brasil, de nome científico Nystalus chacuru, tem esse cgnome porque fica imobilizada quando aparece um predador. A ave quer passar despercebida, a ponto de ser considerada ingênua. João-bobo ainda se finge de morto para não ser capturado, por essa razão ganhou mais um apelido: “sonolento”. Mas por quê joão-bobo age desse modo? Deve ter alguma sabedoria de adaptação em tal comportamento, pode ser que no lugar onde joão-bobo vive não existam caçadores de ação rápida, talvez ficar quieto seja o melhor esconderijo…

No espetáculo João Bobo, a ave parece personificada em um menino chamado João, que mora em uma cidadezinha e cuja mãe lhe pede que vá à feira comprar alimentos e utensílios domésticos. João cumpre as tarefas cometendo erros porque a mãe nunca explica o modo de realizá-las de forma completa.

Todo mundo se diverte com a jornada de aprendizado do herói e faz descobertas a partir das experiências desse protagonista. João realiza os seguintes trabalhos: vai à feira comprar uma agulha, depois um pouco de manteiga, no outro dia um porquinho, em outro, um galão de leite e assim por diante.

A direção do espetáculo, de Ana Luiza Junqueira, marca a sequência das ações de variadas formas, desde a imposição do ritmo pausado nos diálogos e na movimentação dos atores até na cenografia e na trilha sonora.  A adaptação ainda destaca um papagaio encantado, bem construído pelo ator João Vitor Figueiredo, sobretudo pela elocução excelente. A ave ajuda o herói a enfrentar os desafios e a solucionar os conflitos.

De forma plástica, a encenação deixa à mostra do público o mecanismo do entendimento infantil e os arranjos poéticos. A agulha cai no palheiro e ninguém mais acha. A manteiga derretida se transforma na geleca amarela escorrendo das mãos brincalhonas, porém delicadas, dos atores. A cortina branca de um dos três cenários no palco esvoaça e vira o leite derramado pela estrada durante o trajeto do João. A cenografia é de Ana Luiza e Kelvin Tertuliano, que representa o protagonista com bastante acerto pela suavidade e sorriso manso. 

As onomatopeias dos bichos fazem parte da trama e ajudam a plateia a reconhecer os personagens e quais papéis desempenham. Executadas ao vivo, as canções comentam os acontecimentos e têm a qualidade de jogar com a ambiguidade para intrigar o espectador. 

As letras introduzem o ponto de vista irônico sobre as peripécias, questionando se o personagem é mesmo um bobo ou é tolice das pessoas o considerar dessa maneira. Direção musical, composição e arranjo: Margot Lohn.

E agora, qual é a sua inteligência: saber interpretar o que lê e o que os outros falam, ou seria a habilidade de reconhecer os problemas e descobrir rapidamente como resolvê-los? Tem gente que tem inteligência linguística, várias pessoas possuem maior capacidade lógica, outras, musical, espacial, corporal, ainda outros humanos têm a capacidade naturalista aguçada, o que significa que percebem como são os fenômenos naturais. 

Em entrevista à jornalista Monica Weinberg para a revista Veja (2007), o psicólogo norte-americano Howard Gardner explicou que a mente é composta por inteligências múltiplas e descreveu oito delas, acima exemplificadas. Gardner concluiu afirmando que ninguém é desprovido de habilidades cognitivas, que variam em grau e tipos de inteligência em cada um. (https://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/burros_sao_raros.htm)

As crianças que viram o espetáculo na mesma manhã desta crítica que aqui escreve perceberam que João Bobo é um menino inteligente. Tom, de 5 anos, disse que gostou mais quando o personagem executou as tarefas pedidas pela mãe: “Gostei de todas”, falou.  De todas? A resposta foi novamente afirmativa.

Ao que parece, Tom entendeu cada ação separadamente, sem relacionar a tarefa anterior do João Bobo ao trabalho seguinte, de forma adaptativa –sentido literal e concreto. O irmão gêmeo de Tom, Gael, contou que gostou mais da cena “do leite”, que entorna pelo caminho, ou seja, percebeu no espetáculo relações de similaridade, metafóricas. 

Irene, de 3 anos, disse que “queria ser o porquinho”, isto é, deteve-se na representação dos animais pelos atores e nas vozes que faziam nos papéis dos bichos da história. Esse aspecto é revelador da acuidade do elenco na representação dramática e já em na peça de estreia da Paideia no teatro para bebês. 

Os atores conhecem como falar diretamente para o entendimento da criança, atentos à recomendação da faixa etária do espetáculo – público até 7 anos –, realizando as ações e diálogos de modo mais lento, ritmo considerado adequado por especialistas sobre a primeira infância e em conformidade com as crianças entrevistadas.

Elenco se formou na Cia. Paideia, que faz 25 anos

O elenco de João Bobo é fruto do curso contínuo de Vivência Teatral, da Paideia Associação Cultural, do bairro de Santo Amaro, na capital paulista, gerido pela Paideia, companhia criada em 1998 por Aglaia Pusch e Amauri Falseti com a missão de formar crianças e adolescentes por meio do teatro e para o teatro. A companhia também tem parceria com a EMEF Carlos de Andrade Rizzini para aulas de teatro e apresentação de trabalhos feitos pelas crianças e jovens.

Seu 17º Festival Internacional Paideia de Teatro para a Infância e Juventude: Uma Janela para a Utopia, que ocorreu em outubro de 2023, marcou os 25 anos da companhia, sua tradição de pesquisa sobre o teatro para esses públicos e o intercâmbio cultural e de experiência dramática com artistas de todo o Brasil e do mundo, da Alemanha, França, Itália e Bélgica, entre outros países da Europa, e países das Américas, como Cuba, Argentina, Uruguai, Chile e México, além daqueles de outros continentes. 

Ficha técnica

Texto: Adaptação do conto popular brasileiro João Bobo pela Paideia. Direção: Ana Luiza Junqueira. Direção musical, composição e arranjo: Margot Lohn. Elenco: João Vitor Figueiredo, Kelvin Tertuliano, Luísa Crobelatti, Rogerio Modesto e Suzana Azevedo. Musicistas: Margot Lohn e Chiara Laureen Flemming. Iluminação: Rogerio Modesto. Cenografia: Ana Luiza Junqueira e Kelvin Tertuliano. Figurinos: Kelvin Tertuliano. Fotos: Dani Sandrini.